O nascimento de um bebê traz momentos únicos e diversos desafios para a rotina familiar. Entre os itens mais tradicionais do enxoval infantil, a chupeta quase sempre marca presença como um recurso prático para acalmar crises de choro e tranquilizar os pequenos. No entanto, a relação entre o acessório e o desenvolvimento infantil é um tema recorrente na odontologia.
Muitos pais e cuidadores se perguntam: afinal, o uso da chupeta pode realmente trazer prejuízos à saúde bucal das crianças? A resposta exige compreender a anatomia infantil, a intensidade do hábito e os impactos causados pelo uso prolongado desse item no sistema estomatognático.
A origem do hábito e o reflexo natural de sucção
A prática de oferecer objetos para acalmar crianças é bastante antiga. Registros históricos apontam que, desde o período Neolítico, pequenos pedaços de pano contendo alimentos eram utilizados para acalmar os bebês. Esses panos tinham tamanho adequado para evitar engasgos e contavam com pontas que podiam ser amarradas às roupas ou ao berço. Mais tarde, os mordedores utilizados no período da erupção dentária abriram caminho para as chupetas modernas (conhecidas em inglês como pacifiers, pela função de pacificar), inicialmente feitas de borracha e hoje fabricadas em materiais como látex, plástico e silicone.
Do ponto de vista biológico, o bebê já nasce programado para sugar. Os reflexos de busca, sucção e deglutição começam ainda no útero materno — quando é comum observar o feto sugando o polegar. Ao nascer, a boca é o principal meio de exploração e conexão da criança com o mundo, e a necessidade de sucção é naturalmente suprida pela amamentação, atingindo seu ponto máximo durante o primeiro ano de vida.
Quando a chupeta é introduzida de forma constante na rotina, essa sucção deixa de ser apenas nutritiva e pode interferir negativamente nas estruturas orais em crescimento.
Impactos do uso prolongado na cavidade oral
O desenvolvimento craniofacial dos bebês é extremamente dinâmico. A introdução contínua da chupeta pode alterar o equilíbrio das forças musculares da boca e modificar a posição correta das estruturas orofaciais. Os principais prejuízos observados incluem:
1. Alterações na arcada dentária e na mordida
O uso frequente da chupeta pode provocar o estreitamento do arco maxilar (atresia da maxila) e fazer com que o céu da boca se torne alto e estreito (palato ogival). Entre as alterações oclusais mais frequentes, destacam-se:
- Mordida aberta anterior: os dentes da frente deixam de se tocar quando a boca está fechada, criando um espaço circular entre eles.
- Mordida cruzada posterior: os dentes posteriores superiores fecham por dentro dos dentes inferiores, em vez de repousarem ligeiramente por fora.
- Aumento da sobressaliência: projeção acentuada dos dentes anteriores superiores para a frente.
Essas deformidades dentofaciais tornam-se ainda mais severas a partir dos 3 anos de idade. Além disso, quanto maior a duração diária e os anos de uso, maior o risco de essas más oclusões se consolidarem e persistirem mesmo após a retirada definitiva do bico.
2. Dificuldades na mastigação e na deglutição
Para mastigar e engolir adequadamente, os ossos, dentes e músculos faciais precisam trabalhar de maneira coordenada. O uso excessivo da chupeta pode levar à hipotonia muscular (perda de tônus dos lábios e bochechas) e manter a língua em uma posição baixa e inadequada na cavidade oral. Com a mordida alterada e os músculos desregulados, a criança encontra dificuldade para movimentar corretamente o bolo alimentar, prejudicando a eficiência mastigatória e o padrão correto de deglutição.
3. Prejuízos na fala e indução à respiração bucal
O hábito prolongado da sucção não nutritiva, especialmente quando ultrapassa seis meses de duração, interfere diretamente na motilidade e na postura da língua, o que pode resultar em distorções fonéticas durante o aprendizado da fala.
Outro fator crítico é a alteração no padrão respiratório. O uso habitual do bico favorece o desmame precoce e pode condicionar a criança a respirar pela boca. Diferente da respiração nasal — na qual o ar é devidamente filtrado, aquecido e umedecido antes de chegar aos pulmões —, a respiração bucal expõe as vias aéreas diretamente ao ar frio e a impurezas, aumentando a incidência de infecções respiratórias de repetição.
Chupetas tradicionais versus ortodônticas
O mercado infantil disponibiliza diferentes modelos de chupetas, sendo dois os principais formatos:
- Chupetas tradicionais: apresentam um escudo circular com furos de ventilação e bico redondo em látex, sendo utilizadas há décadas.
- Chupetas ortodônticas: desenvolvidas com bico mais fino, base côncava e extremidade achatada e curvada em direção aos lábios. Segundo os fabricantes, esse formato busca imitar o bico do seio materno, ocupando menor volume no interior da cavidade oral.
Apesar de o modelo ortodôntico promover menor deslocamento mecânico do que o bico tradicional, nenhum tipo de bico artificial anula completamente os riscos de alterações dentofaciais quando utilizado por tempo prolongado.
As chupetas são totalmente vilãs?
A resposta depende da tríade de uso: frequência, intensidade e duração. O uso esporádico e controlado durante crises intensas de choro não traz os mesmos efeitos que o hábito de manter a criança com o bico o dia todo.
Quando a chupeta é retirada até os seis meses de vida, dificilmente deixa sequelas oclusais estruturadas. Recomenda-se que, caso a família opte por ofertar o acessório ao recém-nascido, seu uso não ultrapasse os dois anos de idade. A partir dessa faixa etária, as alterações dentárias raramente se corrigem de forma espontânea e passam a exigir intervenção clínica especializada.
Orientações práticas para o dia a dia dos pais
Para minimizar os impactos caso a família decida utilizar a chupeta, algumas medidas preventivas são essenciais:
- Uso pontual: recorra à chupeta apenas em momentos específicos de desconforto ou crises de choro, retirando-a assim que o bebê adormecer ou se acalmar.
- Evite prendedores: não fixe a chupeta nas roupas da criança. Prendedores deixam o item sempre disponível, transformando o ato de sugar em um vício mecânico e contínuo.
- Não crie rotinas automáticas: não associe o uso da chupeta a todas as transições do dia a dia, como passeios de carrinho ou momentos de brincadeira.
- Atenção à esterilização: as chupetas entram em contato constante com o ambiente externo e podem acumular microrganismos ou restos de alimentos. A higienização deficiente favorece o surgimento de lesões na mucosa bucal e aumenta o risco de cárie na primeira infância.
Quando buscar acompanhamento profissional?
A primeira visita ao cirurgião-dentista com foco em Odontopediatria deve acontecer já nos primeiros meses de vida da criança. O acompanhamento periódico semestral permite avaliar a anatomia das arcadas, acompanhar a erupção dos dentes e orientar a família sobre estratégias de remoção gradual de hábitos de sucção.
Se houver alterações oclusais já instaladas, o profissional determinará a melhor abordagem corretiva:
- Entre 2 anos e meio e 3 anos: pode ser aplicada a reabilitação neuroclusal com ajustes oclusais por pistas diretas Planas (acréscimos ou desgastes controlados de resina), auxiliando na autocorreção das mordidas cruzadas, abertas e sobressaliências.
- Entre 3 anos e meio e 4 anos: podem ser indicados aparelhos ortopédicos funcionais para restabelecer a postura correta das arcadas e guiar o crescimento ósseo equilibrado.
Cuidar do desenvolvimento bucal da criança desde os primeiros passos é a garantia de um crescimento saudável, com funções de respiração, mastigação e fala preservadas. Agende uma avaliação em nossa clínica odontológica e conte com nossos especialistas para orientar as melhores escolhas para o sorriso do seu pequeno!
Fonte: Revista CROSP